Após 15 anos de silêncio, reencontro este espaço. Há algo de profundamente revelador em ler o que o nosso "eu do passado" escreveu; é como encontrar uma velha vitrola, resgatar o disco de Top Gun (meu primeiro vinil não infantil) e sentir o impulso de recomeçar uma coleção.
Meu retorno aos blogs não é apenas um exercício de nostalgia, mas uma resposta à percepção de que nos cercamos de tecnologias desnecessárias e, muitas vezes, predatórias. Eu, que outrora defendi entusiasticamente cada inovação, vi-me forçado a aplicar um filtro rigoroso. Percebi que o excesso tecnológico atua como uma âncora, impedindo a sensação de liberdade.
A Conveniência da Vigilância
Vivemos sob uma "cegueira confortável". Dispositivos vêm configurados para rastrear cada passo sob o pretexto de "melhorar a experiência". Relógios inteligentes monitoram sua saúde, sim, mas o objetivo final é mapear seu estilo de vida para converter sua rotina em dados de consumo. Acredite: ninguém — nem você mesmo — dedica tanta atenção aos seus hábitos quanto as fabricantes de hardware.
Nos últimos 20 anos, transitei de um entusiasta de dispositivos para um vigilante do desperdício de tempo. Hoje, vivo bem sem o Instagram. Mantenho o Facebook apenas pelo Marketplace e contatos pontuais. Minha maior atividade é no Pinterest, que ironicamente parece me punir com excesso de anúncios por eu não estar entregando minha atenção a outras redes da "família".
O Paradoxo do Hardware
A vida fora das redes sociais revela uma verdade incômoda: sem o ciclo vicioso do consumo de conteúdo, o smartphone torna-se quase obsoleto. Sem a necessidade de "rolar o feed", as telas gigantes, câmeras cinematográficas e conexões ultra-rápidas perdem muito de seu propósito original.
Quando deixei o Brasil, desfiz-me do supérfluo. Fiquei com o funcional: celular, smartband e Kindle. Três anos depois, a configuração mudou pouco, mas minha percepção mudou tudo. O ponto de virada foi um lapso de absurdo: o dia em que cometi a "heresia" de checar a notificação no relógio e olhar as horas no celular.
O Usuário como Ameaça
A rebelião definitiva veio em 2025. Ao tentar me conectar com uma pessoa que admirava e não via há anos, o Instagram alertou-a de que meu perfil era uma "ameaça" à plataforma devido aos meus comportamentos. A pergunta que fica é: não podemos mais questionar narrativas ou nos manifestar contra governos?
A resposta parece ser negativa. Estamos sendo rastreados e segregados em bolhas. Quando tentamos romper essas barreiras ou deixamos de ser "bons consumidores", o sistema nos identifica como anomalias.
Mais do que o orgulho pessoal de ser rotulado como uma "ameaça" pela Meta, ficou a lição: é preciso desconectar para manter o foco no que realmente importa.
Mas, afinal, o que resta de importante quando não estamos postando?
Isso é assunto para o próximo texto.
Até lá.
(Imagem inicial feita no NanoBanana)
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